Video Games, Arte e cultura

@cafe-8-bits

Esse texto foi originalmente públicado no blog do Café 8 Bits, em 24 de Setembro de 2017~~ Pequenas alterações e correções foram feitas.

Quando nós falamos em video games, principalmente no Brasil, um povo tão ignorante e averso a novas tecnologias, nem sempre o assunto que se fala é arte ou cultura, apenas brinquedos que devem ser abandonados em um certo momento da vida.

No Brasil principalmente, as pessoas são forçadas a abandonar velhos gostos quando chegam a uma determinada idade. Eu não estou dizendo que isto é um caso isolado de nosso país, pois não é! Acreditem. Mas, gostaria de dar ênfase em como isso é comum no Brasil. Gosta de desenhos quando criança? Pode ser um animador no futuro! Não, você é forçado a abandonar isso pois é algo considerado infantil. Chega da escola e gosta de jogar videogames? Olha, talvez você possa ser um programador ou game designer no futuro…. Não! Abandone isso, você já tem mais de 18 anos, crie vergonha e vá fazer algo da sua idade. Gosta de ler quadrinhos? Talvez você pudesse descobrir um talento com escrita, desenho ou design. Meu deus, não! Você já está no colegial, largue essas coisas e vá estudar algo de adulto (…) Entende? Claro que, nem todos trabalham com os passatempos que gostam e sim, eu concordo. Mas… É só anormal como temos essa ideia impregnada de que temos que tirar o foco de hobbies cedo de mais.

E sim, eu sei que nem sempre ser influenciado por um tipo de arte te leva a trabalhar com isso, mas elas vão ter sim um papel significativo na formação do Ser Humano que você será.

Um video game não pode ser vendido e entendido como um brinquedo de crianças sem profundidade alguma. A criação de um jogo eletrônico como um todo, junta diversos profissionais de vários âmbitos da arte. Temos desenhistas e animadores trabalhando ali, também músicos profissionais compondo dezenas de músicas, roteiristas trabalhando na historia e diálogos do jogo. Então, se obtemos música, animação e roteiros envolvidos e dizemos que o conjunto de tudo isso é puramente um brinquedo que deve ser abandonado quando se atinge a maioridade, é dizer que temos que também devemos abandonar livros, música e bons filmes e peças de teatro em dado momento?

É completamente compreensível a preocupação de pais que querem que sua criança se exercite e sim, isso é importante. Mas, humilhar um adolescente o chamando de infantil e irresponsável por gastar tempo livre em um videogame já é estúpido. No Brasil (reitero que isso não acontece só aqui) a população tem aversão a tecnologias. Basta ligar a TV Record uma vez por mês, ou até uma vez por semana, em algum telejornal, que verá alguma reportagem sensacionalista apontando os riscos de alguma nova tecnologia. É claro, para uma mídia moribunda como a televisão é muito lucrativo implantar a ideia de que tecnologias novas são algo errado, prejudicial.

Nunca me esqueço de uma vez no trabalho, estava sentado trabalhando e uma mulher criticava avidamente Pokémon Go, o que está tudo bem, eu não gosto tanto de Pokémon Go. Mas ela não criticava o jogo de forma embasada, apenas estava, nas palavras dela, ‘’incomodada com a quantidade de adultos jogando aquilo.’’ Qual o problema em um adulto gastar tempo livre com um passatempo? Isto é, se ele já cumpriu com as responsabilidades que orbitam a vida dele. E isso não é exclusividade de jogos, mas de tecnologias no geral. Como a onda de ataques que motoristas de apps como Uber sofreram de taxistas no fim da última década.

Acredito que reações do público como estas também afetam o nosso desenvolvimento tecnológico como país. Mas isso é assunto pra outro texto. De qualquer forma, é uma linha de raciocínio muito prejudicial para todas as áreas tecnológicas, que apenas se reflete nos vídeo games de forma geral.

Pela definição mais básica, cultura não é só música MPB, música clássica e livros de Machado de Assis, mas sim uma atividade humana ligada diretamente a difusão das artes. Sua paixão por video games, não deve ser vista como algo infantil e descompromissado. Entretanto, se está preocupado com a visão social de seu hobbie, troque o foco! Tente se preocupar com sua saúde, se alimente e se exercite direito. Enquanto você tiver esses dois lados da balança equilibrados, estará tudo certo.

O problema mora em quando você deixa seus hobbies tomarem muito de sua vida, tornam-se uma obrigação que consome seu tempo livre e sua saúde. Quando isso acontece, quando seu passatempo artístico torna-se uma relação tóxica, deve-se agir e tentar reverter. Mas reitero, isso pode ocorrer em qualquer âmbito artístico.

Ainda assim, é curiosa a aversão a tecnologias que a população tem no Brasil, e como as pessoas ligam video games a diversão banal. Não que não existam pessoas que jogam de forma casual, mas é como se todo hobbie envolvendo tecnologias fosse tóxico e improdutivo, o que não é verdade. Video games inspiram e tornam pessoas melhores, e a toxicidade pode vir de qualquer expressão artística. Já conheci gente que era obcecada em colecionar pássaros (!) e isso consumiu toda a sua vida. O fato é que passamos por uma era de automação e transformações, o que deve causar uma estranheza de forma natural.

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