Digimon, uma franquia injustiçada

@cafe-8-bits

Digimon é uma franquia curiosa. Tendo surgido no mesmo ano em que nasci, tive uma relação muito complexa com a mesma. Quer dizer, eu naturalmente fui exposto a ela quando criança, mas como eu já era desde cedo ‘’laçado’’ por Pokémon, existia um certo preconceito da minha parte com a série dos monstrinhos digitais. Quer dizer, conforme eu crescia até tinha vontade de entender mais a fundo, mas era quase um tabu entre as crianças da rodinha de Pokémon, sabe?

De qualquer forma, existem diversas memórias no fundo do meu cérebro que envolvem Digimon, desde o anime na tv até meu aniversário de 3 anos que foi de Digimon. Pois é.

Mas pessoas crescem, e meu gosto amadureceu junto. Com o tempo passei a me interessar muito por franquias de monstrinhos capturáveis em geral, como vocês devem reparar. E já faz alguns anos que Digimon foi de um ‘’big no’’ pra mim pra ‘’hm, parece interessante’’.

Mas ai que está. É injusto comparar Digimon com coisas como Pokémon, pois sua filosofia e método de desenvolvimento de seus produtos é bem diferente, e possui outras miras. Embora seja uma cria da mesma cultura, é objetivamente errado dizer que é um clone de qualquer outro produto da época. Até porque, seu começo é bem diferente.

Ao contrário do que muita gente pensa, Digimon nasceu de uma forma humilde, e muito distante de seus rivais. Na verdade, tudo começou pois a Bandai descobriu que seu produto de sucesso dos anos 1990, o Tamagotchi (que você deve conhecer como bichinho virtual, e este também fez sucesso por aqui) não estava vendendo bem entre meninos. Eles tomaram a decisão de lançar um novo produto da marca, que seria divulgado com alvo no público masculino.

O novo brinquedo se chamaria Digital Monster, que foi apelidado carinhosamente de Digimon! Dentre suas diferenças com o Tamagotchi, estavam a capacidade de treinar seu monstrinho, e coloca-lo para batalhar com os de outras crianças. Ambas essas novas funcionalidades interferiam no crescimento da criatura, e isso era uma novidade no segmento.

Um Vpet de Digimon original

O brinquedo foi, obviamente um sucesso. Tipo, não era óbvio? Até mesmo entre meninas, o brinquedo ganhou espaço e acabou virando algo muito diferente do que seu irmão Tamagotchi. Eu particularmente amava os bichinhos virtuais da época quando criança, mas mesmo que infelizmente nunca tenha esbarrado em um Digital Monster, é seguro dizer que era um pedaço de tecnologia fascinante da sua era. Principalmente a mecânica de ‘’batalha’’ entre as criaturinhas, que registravam pontuações, recordes, e a forma com as quais elas interagiam com os monstros rivais interferiam na evolução e crescimento das mesmas!

O elemento de interação desses brinquedos era o espetáculo principal, já que devido as inúmeras variáveis de um bichinho virtual, coloca-los para brigar é uma sacada genial quando se para pra pensar. O fator replay dessa brincadeira pode ser imenso, e até melhor do que um Tamagotchi em si, já que após a inevitável morte de seu companheiro, você continua tendo motivos para cuidar dele.

A conexão dessa maquinha era bem simples, feita por dois pinos que transferiam os dados. A batalha em si era só encenada, já que tudo que era feito pelo sistema era uma breve comparação dos stats das criaturas, e depois uma animação que anunciava o vencedor. Nada muito distante do que uma calculadora pode fazer, mas ainda assim se tornou um tremendo sucesso, antes mesmo do anime Digimon Adventures chegar na TV.

E quando se encara Digimon como sendo produto da cultura dos Vpets, você passa a entender muito melhor como a franquia funciona. Passa a ver de onde vem as linhas evolutivas confusas, e coisas do tipo.

Elementos de virtual pet são recorrentes nos jogos da série, por exemplo. Existe toda uma categoria de videogames destinada a este conceito, que é Digimon World. Embora alguns títulos dessa saga tenham se aventurado por todo tipo imaginável de gênero de RPG, hoje em dia ela é conhecida por ser um jogo de simulação com elementos de Vpet, o que implica que alem de treinar e batalhar com essas criaturas, você deve cuidar delas, dar comida, leva-las ao banheiro e estar lá por elas quando derem seu último suspiro.

E mesmo nos jogos em que este não é o foco, temos uma ênfase em elementos de bichinho virtual. Como na série Digimon Story, de RPGs, (que teve seu último lançamento em 2018 com Hacker´s Memory. ) podemos acumular nossos monstros em ‘’ilhas’’, onde os alimentamos, treinamos e damos carinhos básicos, além de que dependendo de como jogamos, as linhas evolutivas das criaturas são moldadas de formas únicas.

E isso diz muito sobre o motivo de eu acreditar que essa propriedade intelectual seja injustiçada. Normalmente, se olha para ela levando em consideração outros jogos e brinquedos que coexistiram na época, mas esta não é a intenção de seus criadores, tão pouco de sua mira mercadológica. Talvez hoje em dia, com o sucesso de Digimon Story possa sim ser uma competição direta com os jogos de Pokémon, mas… Não é uma regra. É apenas uma consequência de um de seus desdobramentos.

Digimon World Next Order foi o último jogo da série World a sair, em 2017

E quando você enxerga desta forma, Digimon fica 100% mais interessante. Uma coisa que eu gosto muito, é como cada monstrinho possui um apelo pessoal. Embora existam diversas criaturas que sejam um mero redesign de outra dita cuja, muitas tem uma inspiração absurda e referências

Eu também gosto muito da ideia de Digimon, e suas filosofias de design. Sendo formas de vida que surgiram dos dados que nós, jogamos na rede, muitas delas tomam formas de diversos aspectos da cultura, sociedade e comportamento humano, sendo personificações destas coisas. Este é inclusive um tema pequeno dentro de uma das séries de anime: Data Squad.

Acredito que uma das características de dessa saga que a deixem tão inacessível para algumas pessoas, é o fato de que por ser uma franquia multimídia, para alguém de fora, ela não parece não ter tanto foco. Criaturas novas são criadas a todo momento, diversas séries de jogos existem e existiram, experimentando com todo tipo de gênero e apelo, e sem falar das inúmeras animações, e até um lore confuso. Mas pra mim, isso só mostra como é uma propriedade intelectual rica em conteúdo, e com certeza tem algo aqui para você.

Monstros Digitais mais atuais do que nunca

Durante o início dos anos 2010, Digimon experimentou com novas mídias, recomeçou a série world, e por volta de 2015 lançou Digimon Cyber Sleuth, (que eu vou falar em breve em um artigo separado) que foi tão bem recebido que, somado a sua sequência tornaram-se os jogos mais vendidos de todos dentro da franquia, apostando um take moderno nos monstrinhos digitais, e se apropriando as novas tecnologias com a narrativa e ideias.

Além disso, na mesma época tivemos o controverso Digimon Adventure Tri, continuando a historia do anime original. Isso tudo criou um novo hype em cima dos monstros digitais que acabou ficando, inclusive foi onde eu comecei a olhar para tal com melhores olhos.

Eles até tentaram se aventurar em jogos mobile com um Spin Off chamado Appmon, mas isso ai foi tão bizarro que até a Bandai finge que não aconteceu, e quem sabe um dia eu toque no assunto…

Depois de uma década de renovações, Digimon decidiu que 2020 seria seu ano. (Ta certo que não foi o ano de ninguém, pois enfrentamos uma pandemia global e suas consequências, então isso de certo vai ser adiado, mas…) Em 2020 tivemos o lançamento de um filme, Last Adventure, que finaliza de vez o enredo da temporada original de Adventure, e trouxe muito fã marmanjo as lagrimas. Tivemos um novo card game, um anime ‘’novo’’ e por fim um novo jogo a caminho, este sendo Digimon Survive. (Que também deve ganhar um artigo próprio)

Portanto agora é o momento para você, meu caro leitor, entrar de cabeça neste mundo. O que não falta é conteúdo, jogos e animações. Como eu sou particularmente investido em videogames, a série Cyber Sleuth me pegou em cheio, e mal posso esperar por Survive.

No fim, creio que o que eu mais goste nessa franquia e o que mais tenha me feito me apegar a ela nos últimos tempos é que os Digimon tem um apelo muito pessoal a ideia deles, além de que boa parte dos trabalhos envolvendo o material fonte são tratados com bastante cuidado, dando alma a seus jogos e animes. Nada é só um produto ou comercial pra vender brinquedos, mas os criadores estão ativamente buscando ouvir o público e trazer coisas competentes pra mesa. E isso, meus amigos é algo que muitas empresas poderiam aprender, principalmente os seus supostos concorrentes.

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