Resident Evil: Revelations 2 - Um desperdício de tempo num game excelente, mas cheio de falhas.

@uroichy-san

 2015, um ano muito importante para a indústria dos games, pois foi nesse ano que tivemos o lançamento de games de peso para o mercado, com games que redefiniram gêneros, e mostraram como se contar uma boa história sem perder a essência de suas origens, como foram os casos das continuações The witcher 3, e Rise of the Tomb Raider. E foi nesse ano que tivemos também o lançamento de um título muito aguardado pelos fãs, uma continuação que todos queríamos, Resident Evil: Revelations 2, a continuação da série iniciada em 2012 nos portáteis.

 A história desse se passa na misteriosa ilha Zabytij, uma ilha que fica em uma área desconhecida, não aparecendo em mapas, e possuindo uma ambientação tão misteriosa quanto, já que leva os personagens de prisões a minas abandonas cheias de gás.

 Deste vez temos o retorno de Claire Radfield, protagonista de RE 2, e Barry Burton, personagem de RE 1. Com as estreias ficando por conta de Moira Burton, filha de Barry e amiga de Claire, a garotinha misteriosa Natália Korda, uma criança que é encontrada e se mantém um mistério, e Alex Wesker, mais uma das crianças Wesker que sobreviveu.

 A história se inicia quando Claire e Moira são raptadas, juntamente de várias outras pessoas membros da Terra Save, e são levadas para a desconhecida ilha Zabytij, com Barry indo atrás das duas algum tempo depois, e é onde o game tem inicio. Seguindo a ideia do primeiro Revelations, a história se alterna entre a campanha de Claire e Moira, e então a Barry e Natália.

 O modo como a história foi feita ficou muito bom, a cada capítulo que termina o jogador se sente mais confuso e se pega montando teorias e teorias sobre o que aconteceu, para então ser pego aqui e ali pelos plot twists clássicos da franquia, e alguns novos, e sentir aquele desconforto nos cenários apertados e corredores sinistros.

 A mecânica de jogo está muito boa, atirar e esquivar fluem bem entre si, permitindo ao jogador escapar de ataques de forma mais natural, e ainda sim sem tornar fácil demais ao ponto de parecer mais um jogo de ação do que de terror. Podendo alternar entre Claire e Moira, ou Barry e Natália, o jogador terá uma gameplay diferente com cada um dos personagens, pois, enquanto Claire e Barry usam diferentes tipos de armas de fogo e golpes físicos, Moira e Natália não usam armas, por motivos diferentes uma da outra, e dependem de golpes com armas brancas, e no caso de Natália fica por conta de usar tijolos que ficam pelo cenário.

 O modo Raid está de volta, onde o jogador pode jogar diferentes modos de jogos com diferentes objetivos, usando vários personagens, que desta vez, são personagens tanto do próprio Revelations 2 quanto de alguns outros, como Albert Wesker, e Leon Kennedy. Os objetivos também são diferentes dos do primeiro jogo, já que desta vez há o clássico eliminar todos os inimigos, até o defenda o cristal, onde um tipo de cristal verde fica flutuando no cenário para ser atacado pelos monstros, e o jogador precisa protegê-lo.

  Nesse modo, assim como no anterior, também é possível subir o nível de determinado personagem, adquirindo assim novas habilidades e novas armas, que se fazem necessárias conforme os níveis aumentam. E os cenários trazem nostalgia, já que misturam cenários de alguns outros games da franquia. A verdade é que esse modo se tornou um excelente RPG tático de ação com o universo de Resident Evil.

 Para começar os pontos negativos, fica um que é tão ruim quanto bom, pois é, tem isso, vamos lá. Revelations 2 nos coloca novamente em cenários escuros e nada agradáveis, pois toda a ilha tem aquela característica de ilha de filmes de terror, com vegetação de cor bem opaca e muitas estruturas antigas abandonadas que foram dominadas por monstros grotescos. O clima do jogo é quase ausente de trilha sonora, bem similar aos primeiros, onde temos trilha sonora em determinados momentos e nos momentos de tensão, e vários outros onde tudo fica quieto e só ha aquele som agonizante do silêncio, tudo muito bem colocado.

Mas e então, cadê o problema? Então, o clima de terror não passa disso, o ambiente que te causa desconforto e a trilha sonora que te causa tensão, mas acabou, pois sim, temos jumpscares nesse também, e alguns muito bem colocados, mas quase todos os monstros são muito barulhentos, e não te dão sustos em momento algum, o que elimina totalmente a mínima chance de o jogador dar aquele pulo na cadeira mais do que duas ou três vezes durante toda a campanha, e mesmo isso se deve mais pelo psicológico, já que as poucas partes com jumpscares não tentam esconder que algo vai acontecer, fica tão óbvio para os veteranos na franquia que chega a ser ridículo. E esse ponto torna ele tão bom quanto ruim, pois temos sustos e um clima tenso novamente, mas infelizmente é mal executado, nada digno para a franquia.

 Em segundo lugar um detalhe, que nem é grande coisa, mas é algo que os mais atentos a detalhes vão perceber, de onde a Natália tirou esse casaco?

 Eu sei que parece bobo, mas isso impacta muito, é sério, pois quem jogou deve ter percebido, num capítulo do jogo ela usa aquele vestido branco todo surrado, e no capítulo seguinte já está usando essa blusa azul, tirada de onde, é o que fica no ar. Claro que poderia se levar que Barry deu a ela, seria algo natural, mas é importante lembrar que ele não foi a ilha para resgatar garotinhas de, não mais que, onze ou doze anos. E não acho que ele carregue casacos assim na mochila ao ir para uma ilha com relatos de monstros.

 Poderia se dizer ainda que o casaco estava na instalação onde o capítulo termina, mas não acho que teriam casacos tão 'bons' dando sopa naquela casa abandonada, e menos ainda do tamanho perfeito para uma criança. Em minha opinião é um daqueles erros de continuidade que passou batido pela Capcom.

É um ponto mais pessoal, mas duas personagens que não dá para ignorar. Moira Burton, filha de Barry, e uma personagem que acompanha Claire em sua campanha, podendo ser usada pelo jogador para iluminar cantos e itens.

 Quando crianças, Moira e sua irmã mexeram nas armas de Barry e isso resultou num acidente em que a irmã dela se feriu, e nisso Barry se exaltou e gritou com ela, o que deixou Moira com medo real de armas, e causou um afastamento dela e Barry. E o problema é como eles construíram esse problema, pois o tempo todo a personagem fica agindo como uma criança birrenta que queria a atenção do pai que não apoia ela ser membro da Terra Save, e sempre fala sobre ele ter gritado com ela e a culpar pelo acidente, mas, em momento algum do jogo é mostrado ou contado algo que nos dê a entender que esse ponto é real, o tempo todo fica parecendo que ela se culpa e para se sentir melhor age como se Barry fosse o culpado real. E fica ainda mais esquisito quando você descobre que a irmã dela nem se feriu gravemente.

 Agora o 'elefante na sala' que foi o caso com a Claire. Todos conhecemos Claire Radfield em RE 2, quando ela chegava a Raccon City a procura de seu irmão, mas o que não dá para entender é o porque dá mudança abrupta. Tudo bem que seria até compreensível uma pequena mudança de personalidade por parte dela, afinal, vivenciando constantemente mortes por bioterrorismo, uma frieza maior não seria nada estranha, afinal, a Claire também é humana.

 Vivenciando tantas mortes é compreensível que a personagem tenha mudado um pouco com o passar do tempo, mas até isso é um grande desperdício por parte da Capcom. Em RE 2 somos apresentados a uma Claire que chega a Raccon City sendo uma jovem amável e do tipo irmã mais nova preocupada, e que se torna uma irmã mais velha após conhecer Sherry. Contudo, em Revelations 2 a Claire que vemos é muito diferente, pois é fria e até insensível, e parece ficar mais aliviada quando nota que Moira, segundo ela, 'parece levar jeito com crianças'...

 Para quem jogou o RE 2, isso foi um golpe real, pois a personagem já era meio estranha no começo, por parecer pronta demais para ação para alguém que prefere ser uma 'combatente' pacifista que ajuda pessoas em locais de guerra, e está tão pronta para tudo logo de cara. Mas quando Natália entra na história tudo vai por água abaixo ainda mais, pois é ai que a Claire que conhecíamos desaparece mesmo.

 E só para mencionar, um ponto que é mais esquisito e inesperado do que ruim. Um multiplayer foi 'implantado' nesse, similar ao feito em RE 6 em 2012, mas dessa vez não é online, apenas local. Até é interessante, mas claro, se o jogo já é fraco no terror, jogando em dois é ainda mais.

 Os gráficos. Parecendo um título de PS2, não que tenha gráficos tão ruins, em sua forma de agir, com gráfico surreais nas cutscenes, e outros totalmente diferentes durante a gameplay, não que sejam gráficos ruins, mas a diferença entre ambos é tão perceptível que acho impossível alguém jogar e não perceber isso, e não dá para entender a razão, considerando que RE 6 fez algo similar 3 anos antes e ainda conseguiu ser bem mais competente nesse quesito.

 Para finalizar a questão com personagens, Alex Wesker, uma das crianças Wesker, além de Albert, que sobreviveu aos experimentos de Spencer, e que tinha muito potencial para ser a mais nova vilã da franquia como um todo. Não que ela seja um problema, nada disso, o problema aqui é justamente a Capcom ter esquecido dela, e não só ela, mas a própria Natália, os que jogaram sabem dos detalhes, são personagens que certamente não veremos mais, já que a franquia se reinventou com o RE 7 de 2017.

 Enfim, Resident Evil: Revelations 2 falha em aspectos demais quando comparamos com a própria franquia e o que ela representa como um todo,  ignorando personagens e descaracterizando outros de forma absurda, mas certamente é um título que, ainda sim, merece ser jogado. Com uma atmosfera tensa, monstros grotescos, e uma história para ninguém botar defeito, Revelations 2 entrega uma boa experiência, simples e casual, mas que compensa seus pontos negativos.

PLATAFORMAS: PS3, PS4, Xbox 360, Xbox One, Steam.